No alto de uma serra morava um homem muito rico e mau. Ele fez uma promessa para ficar mais rico ainda e tinha que fazer, pelo resto da vida, uma grande festa em homenagem a passagem de São João. Todos os anos isso acontecia. Eram festas com bastante comida, bebida abundante e muita dança até o sol raiar. Ele convidava todo mundo que morava por perto e as festas eram muito concorridas. No resto do ano o ricaço era mesquinho, mas nessas festas abria a bolsa e todo mundo aproveitava. Só que o rico malvado aprontava muito nas festas: bebia demais, xingava as pessoas, brigava com todo mundo e fazia tudo de errado. O pessoal foi cansando de ir a festa. Além do mais, durante o resto do ano, o homem só fazia o que não prestava e não ajudava ninguém.
Ele morava sozinho. Não era casado, nem tinha filhos. Tinha como companheiros um cachorro sarnento, um gato preto e um moleque. O menino era que levava os convites para a festa de São João todos os anos.Mas teve um ano que o garoto saiu para fazer os convites e só encontrou portas fechadas. Ninguém queria ir mais na festa daquele homem malvado. O moleque voltou para casa com a mão cheia de convites.
O homem rico ficou irritado com aquilo e mandou o menino convidar o primeiro que passasse por ele: pobre... rico... até uma visagem. Podia ser o próprio “coisa ruim”. Ele tinha que cumprir sua promessa anual e não importava quem viesse à festa.
O garoto foi e no caminho encontrou um homem que ele não conhecia. O estranho cavaleiro era muito elegante e estava montado num cavalo preto muito bonito. O desconhecido usava esporas de prata e estava com uma roupa tão bonita como um traje de festa.
O moleque fez o convite que foi prontamente aceito pelo estranho. Os dois foram para festa de São João. O homem rico ficou satisfeito, afinal teria a sua festa mesmo com apenas um convidado. Mais aí aconteceu uma coisa estranha. Apesar de ser um só o estranho cavaleiro enchia o salão. Parecia que ele estava em vários lugares ao mesmo tempo: comia e bebia com uma voracidade incrível, dançava freneticamente batendo as esporas de prata por todo salão tirando faíscas do assoalho, cantava com voz grave e suave, quebrava e bagunçava a casa toda. Isso tudo ao mesmo tempo. Antes de o sol nascer o cavalheiro misterioso, com olhos vermelhos como o fogo, convidou o homem rico para uma festa em seu palácio e desapareceu.
Tempos depois, veio um criado numa carruagem muito elegante para levar o homem rico para a festa do cavaleiro misterioso. Por dentro a carruagem era tão elegante como por fora. Toda forrada de veludo vermelho. Mas tinha uma coisa estranha: a carruagem não tinha janelas e não se podia ver o caminho. A viagem foi longa até que o elegante veículo parou e o criado abriu a porta. Era meia-noite e homem pode ver um palácio fantástico. Ele passou pelo portão dourado e entrou num magnífico salão. Lá viu muita gente, alguns ele até conhecia, mas todos já tinham morrido há muito tempo. Todos estavam tristes, com as roupas rasgadas e com cara de fome. No meio do salão o cavaleiro elegante dançava, gargalhava, comia e bebia. De repente um cheiro de enxofre tomou conta de todo lugar e o homem rico compreendeu tudo: estava no palácio do diabo de onde nunca mais saiu. Adaptação de Augusto Pessôa


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